Chocolate é sustentável?

De que forma podemos, mesmo nas pequenas coisas, causar menos impacto ao ambiente? Que mudanças são necessárias para tornar mais leves nossas pegadas sobre este sofrido planeta?

 

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A amêndoa ou grão de cacau, onde se concentram os  flavanoides (CCO/2011)

Refletindo sobre essa questão, enquanto saboreio uma densa, escura barra de chocolate, percebo que até mesmo uma das minhas paixões, o chocolate, tem suas implicações ecológicas. Morando na Dinamarca, relativamente perto de países famosos pela qualidade de seus chocolates, como Suíça e Bélgica, é quase impossível não lembrar que o cacau, matéria prima desse pequeno tesouro, viaja milhares de quilômetros desde as fazendas tropicais onde é produzido até ser transformado pela mágica dos mais talentosos chocolatiers europeus. Hoje, os três primeiros produtores de cacau do mundo, segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e a Alimentação, são respectivamente Costa do Marfim, Gana e Indonésia. O Brasil figura na sexta colocação, posição à qual fomos relegados depois dos efeitos devastadores da praga conhecida como vassoura-de-bruxa, que nos anos 90 destruiu plantações inteiras de cacau no sul do Bahia, área que por muito tempo foi o centro cacaueiro do país.

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Árvore de cacau atingida pela praga vassoura-de-bruxa, que nos anos 90 devastou plantações no Sul da Bahia. Chris [email protected]/2003

Consuma localmente

A viagem em si é motivo o bastante para alguns questionamentos. É evidente que os alimentos produzidos e consumidos em curta distância são mais sustentáveis à medida que a energia desperdiçada e os poluentes gerados com o transporte representam um impacto ambiental significativo. A máxima consuma localmente tem uma boa razão para existir e para ser aplicada na prática. Não é à toa que a gente vê tanta campanha hoje em dia pedindo para que se consuma a fruta da época, por exemplo; ou seja, aquela que está sendo plantada e colhida mais perto de você, aí na sua zona climática.

Johan Six, estudioso e professor de agro-sistemas sustentáveis, um belga que vive em Zurich na Suíça, portanto bastante familiar com a cultura do chocolate, entende que idealmente o chocolate deveria ser processado em áreas próximas a seu cultivo. É totalmente insustentável o fato de o cacau sair do Brasil, ser processado numa terra longínqua e voltar aos consumidores brasileiros em forma de um produto excessivamente caro. Mas ele reforça que esta seria apenas uma entre outras mudanças necessárias para tornar o cultivo do cacau e a produção do chocolate mais sustentáveis e, por tabela, um prazer menos culpado para seus ávidos consumidores.

Menos, por favor

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[email protected]),2010

Para efeito ilustrativo, Six compara a produção do chocolate à da carne. Nos dois casos, o estudioso crê que uma diminuição no consumo aliviaria consideravelmente os efeitos negativos ao planeta. Entenda que ele tem em mente um país como a Suíça onde se consome 12 kg de chocolate per capita anualmente. Claro que mesmo usando a Suíça como exemplo, em termos de irracionalidade e quantidade é difícil bater a agropecuária. Mas isso é tema de outro post. Aguarde!

 Chocolate é alimento?

Carne e chocolate? Há quem conteste a analogia por considerar que chocolate não seja de fato alimento. Afinal, chocolate traz algum benefício para a saúde? Muitos estudos têm sido feitos ao longo dos anos e o que foi possível observar até o momento é que os flavanoides, um componente bioativo encontrado na parte sólida do cacau ( a amêndoa, ou semente) teria a propriedade de relaxar as paredes das veias e estimular o fluxo sanguíneo para o cérebro, portanto seria importante na prevenção de doenças cardiovasculares, por exemplo. Alguns testes clínicos estudam o efeito desse componente usando-o em altas concentrações em cápsulas, o que também evitaria os efeitos indesejáveis dos outros ingredientes que compõem uma barra de chocolate como a manteiga (ou gordura) de cacau e aditivos utilizados para processar o chocolate, além de açúcar e aromatizantes.

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Dark Chocolate/Meio Amargo: mais escuro e mais saudável. Alexander [email protected], 2013.

Como o chocolate mais escuro é em geral o que tem mais concentração da parte sólida, onde os flavanoides são encontrados, acaba sendo o mais indicado. Mas veja que alguns alcalinos, usados para processar o cacau, podem reduzir a quantidade de flavanoides mesmo do dark chocolate e além disso a presença de leite, gorduras e açúcar pode acabar neutralizando ou impedindo os benefícios prováveis com um montão de calorias extra que resultam dessa mistura.

Responsabilidade Social

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Cacau: a fruta. Elias [email protected], 2014.

Alimento ou não, nosso prazer em saborear chocolate movimenta um mercado estimado em cerca de 98 bilhões de dólares por ano, segundo o World Atlas. Algo impossível de ignorar. Se por um lado isso assusta, por significar que mais e mais empresas queiram um naco desse montante, por outro, com o crescimento do consumo consciente, muitas das grandes indústrias de chocolate já promovem formas mais sustentáveis de produção até mesmo para protegerem o bom nome de seus empreendimentos. E entenda que assumindo a chamada responsabilidade social , essas empresas não estão simplesmente sendo boazinhas mas adicionando valor à sua imagem corporativa.

O difícil é, dada toda a experiência negativa dos pequenos agricultores com corporações gigantes , acreditar que dessa vez vai ser diferente é sempre um desafio. A Cargill, uma das maiores multinacionais de alimentos do mundo, hoje tem parcerias com pequenos produtores, ONGs e governos em várias partes do mundo, incluindo o Brasil, onde participa de dois programas no Pará e um no sul da Bahia

Os resultados ao que parece têm sido positivos para os envolvidos. Mas é preciso monitoramento constante dessas parcerias, ou seja, quanto de fato estão cumprindo com sua parte e respeitando direitos dos pequenos produtores e de todos os trabalhadores envolvidos. Somente parceiros comprometidos com fair trade , comércio justo, podem realmente assegurar que o poderio dessas gigantes da indústria alimentícia não estejam explorando quem realmente produz o alimento.

Como consumidor, nossa parte é boicotar produtos que não levem isso a sério. E para fazer isso, a primeira atitude é de fato investigar a história da companhia que produz o chocolate que você consome. Chocolate produzido ao custo da exploração de trabalhadores e suas famílias e da destruição do meio ambiente pode ser amargo demais…

Viva a agrofloresta !

 

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Sistema de agrofloresta em plantação no Sul da Bahia. Chris Bright/2003 @WorldWatch

 

Há várias versões sobre o surgimento do chocolate, mas geralmente acredita-se que o cultivo do cacau e o uso do chocolate tenham quase cinco milênios de história, iniciada nas sociedades pré-colombianas da América Central. E há até quem acredite que o chocolate era uma bebida importante em algumas cerimônias sagradas.

 

Muito dessa bela imagem acabou se dissipando com uma outra mais próxima de nós: as histórias de coronéis corruptos e violentos nos romances de Jorge Amado. Não sem motivos, o cacau foi por muito tempo associado a um modelo de exploração agrícola colonial, ou seja, uma monocultura ocupando grandes porções de terra, onde o lucro se concentra nas mãos de poucos.

Felizmente há outros modelos que se encaixam muito bem ao plantio do cacau, como a agrofloresta. Nesse sistema, há uma integração intencional de certas árvores e arbustos e é justamente essa diversidade que garante a sustentabilidade das espécies vegetais e animais escolhidas . Mais ou menos como aconteceria numa floresta. Esse método alia agricultura tradicional de vários povos do mundo a conhecimentos científicos sobre a fisiologia das plantas e de como interagem com a fauna local. Trocando em miúdos, o cacau pode crescer à sombra de outras árvores frutíferas ou que geram madeira, por exemplo. Dessa forma, pequenos agricultores têm uma opção maior de cultivos.

 

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Chris Bright/ WorldWatch 2003

 

Na prática, além de tornarem o cacau um cultivo de longo termo, portanto mais sustentável, os sistemas de agrofloresta são muito benéficos para o meio ambiente porque auxiliam na proteção do solo e das microbacias e na recuperação dos solos degradados. A agrofloresta é uma das manifestações da agroecologia, que é ao mesmo tempo disciplina científica e prática agrícola assim como um movimento social e político. A agroecologia busca soluções para os desafios da produção agrícola respeitando os saberes tradicionais e os integrando aos novos conhecimentos científicos para produzir agricultura sustentável em todos os níveis, ou seja, ambientais, econômicos e sociais.

Resumindo, para que o chocolate seja sustentável, muita coisa vai ter de mudar…

Selma Vital

Algumas fontes:
https://www.ethz.ch/en/news-and-events/eth-news/news/2013/11/is-chocolate-sustainable.html
http://organicoscuram.com.br/quais-as-diferencas-entre-agroecologia-agricultura-organica-agrofloresta-e-permacultura/
http://link.springer.com/article/10.1051/agro/2009004